Ler Muda o Cérebro
- conversacomoleitor
- 31 de jan.
- 6 min de leitura
"Assim como as pessoas podem ser bilíngues e trilíngues, minha esperança é que desenvolvamos um cérebro 'biletrado'."
Pesquisa da neurocientista norte-americana Maryanne Wolf aponta que "não há nada menos natural do que ler para os seres humanos, mas que isso não é de forma alguma ruim. A alfabetização é uma das maiores invenções da espécie humana. Além de útil, é tão poderosa que transforma nossas mentes. Ler, literalmente, muda o cérebro", afirma.
O avanço da tecnologia e a proliferação das mídias digitais, contudo, têm modificado profundamente a forma como lemos. Apesar de estarmos lendo mais, nossa leitura vem em pequenas pílulas nas telas de celulares e computadores e muita coisa é lida "por alto" ou automaticamente.
Essas mudanças de hábito têm preocupado os cientistas porque, entre outros motivos, a transformação de novas informações em conhecimento consolidado nos circuitos cerebrais requer múltiplas conexões com habilidades de raciocínio abstrato que muitas vezes faltam na leitura "digital".
Ao contrário da linguagem oral, da visão ou da cognição, não existe uma programação genética nos humanos para aprender a ler. Se uma criança, em qualquer parte do mundo, estiver em um ambiente em que as pessoas ao seu redor conversam umas com as outras, sua linguagem será naturalmente ativada. O mesmo não acontece com a leitura, que implica a aquisição de um código simbólico completo, visual e verbal. A leitura é uma invenção relativamente recente na história da humanidade: mal tem 6 mil anos", diz Wolf.
"A leitura traz três poderes mágicos: criatividade, inteligência e empatia", pontua Cressida Cowell, escritora de literatura infantil e autora da série “Como Treinar Seu Dragão". Além disso, "ler uma grande história é muito mais do que entretenimento", acrescenta a biblioterapeuta Ella Berthoud. "A leitura, na verdade, tem muitos benefícios terapêuticos. Seu cérebro entra em um estado meditativo, um processo físico que retarda o batimento cardíaco, acalma e reduz a ansiedade", diz Berthoud. Para ela, por exemplo, ler o romance Zorba, o Grego, de Níkos Kazantzákis, funciona como um remédio contra "claustrofobia, raiva e exaustão".
Biblioterapia, a arte de prescrever livros para curar as doenças da vida, foi reconhecida no “Publisher's Illustrated Medical Dictionary”, em 1941, mas sua prática remonta à Grécia Antiga, quando avisos afixados nas portas das bibliotecas informavam aos leitores que estavam prestes a entrar em um local de cura da alma.
No século XIX, psiquiatras e enfermeiras prescreveram todos os tipos de livros para seus pacientes, desde a Bíblia até literatura de viagem e textos em línguas antigas.
Estudos recentes afirmam que a leitura aguça o pensamento analítico e aprimora nossa capacidade de discernir padrões de comportamentos desconcertantes dos outros e de nós mesmos. FICÇÃO, pode transformar os leitores em pessoas mais socialmente habilidosas e empáticas; ROMANCES, podem informar e motivar; CONTOS e CRÔNICAS, confortam e ajudam a refletir; e POESIA, estimula partes do cérebro relacionadas à memória.
Muitos desses benefícios, no entanto, dependem de um estado conhecido como "leitura profunda". "Quando lemos em um nível superficial, estamos apenas obtendo a informação. Quando lemos profundamente, estamos usando muito mais do nosso córtex cerebral", explica Maryanne Wolf.
"Leitura profunda significa que fazemos analogias e inferências, o que nos permite sermos humanos verdadeiramente críticos, analíticos e empáticos."
Em seu livro “Proust and the squid: The Story and Science of the Reading Brain” ("Proust e a lula: a História e a Ciência por Trás do Cérebro que Lê", em tradução livre), Maryanne Wolf, que é especialista em Neurobiologia da Leitura, explica como, "a certa altura, quando uma criança vai da decodificação à leitura fluente, o caminho dos sinais através do cérebro muda. Em vez de percorrer um trajeto dorsal (...), a leitura passa a se deslocar por um caminho ventral, mais rápido e eficiente. Como o tempo depreendido e o gasto de energia cerebral são menores, um leitor fluente será capaz de integrar mais seus sentimentos e pensamentos à sua própria experiência. O segredo da leitura está no tempo em que ela trabalha para dar ao cérebro a possibilidade de ter pensamentos mais profundos do que antes."
Mas, enquanto o processo de aprender a ler muda nosso cérebro, o mesmo acontece com o que lemos e como lemos. Há aqueles, contudo, que acreditam que as novas plataformas são parte da solução, e não do problema. Para Chris Meade, autor que utiliza vários tipos de mídia para veicular seu trabalho, "pensamos no livro como obra, mas o livro é apenas um mecanismo de entrega". A Narrativa Transmídia é um tipo de história em que o enredo se desenrola por meio de múltiplas plataformas - aplicativos, livros digitais, games, quadrinhos, blogs - e nela os consumidores podem assumir um papel ativo no processo de construção. "As novas mídias estão dando voz a uma nova geração de escritores. Elas impedem que nos condicionemos a pensar que existe apenas um tipo de 'boa escrita' e permitem que as pessoas simplesmente compartilhem histórias e experiências", opina Natalie A. Carter, co-fundadora do clube do livro “Black Girls Book Club". "Não importa o meio, é a história que importa", complementa Melissa Cummings-Quarry, também co-fundadora do “Black Girls Book Club". "O romance está evoluindo. Há todo tipo de livro incrível sendo escrito especificamente para ser lido no celular", afirma Berthoud. "O livro talvez passe a ilusão de que ele é tudo. Não é! Ele é uma forma de entrar em um processo de pensamento", diz Meade. Ainda assim, os cientistas afirmam que a leitura digital pode ter um custo para o cérebro do leitor.
"Reunimos acadêmicos e cientistas de mais de trinta países para pesquisar o impacto das mídias digitais na leitura", afirma Anne Mangen, à frente da E-READ (Evolução da Leitura na Era da Digitalização), organização cujo objetivo é melhorar a compreensão científica das implicações da digitalização da cultura. Faz parte do programa internacional da Cooperação Europeia em Ciência e Tecnologia (ou COST, sigla para European Cooperation in Science and Technology), que considera a leitura um "tema urgente". Segundo o programa, "a pesquisa mostra que a quantidade de tempo gasto na leitura de textos longos está diminuindo e, devido à digitalização, a leitura está se tornando mais intermitente e fragmentada", algo que pode "ter um impacto negativo nos aspectos cognitivos emocionais da leitura". "Descobrimos que existe o que se chama de 'inferioridade na tela'. Há muitas coisas que podem ser lidas igualmente bem no smartphone, como as notícias mais curtas. Mas, quando se trata de algo que é cognitiva ou emocionalmente desafiador, ler em uma tela leva a uma compreensão de leitura pior do que ler no papel", destaca Anne Mangen.
Maryanne Wolf concorda, acrescentando que "a realidade é que não é apenas o quê ou o quanto lemos, mas como lemos. Isto é que é realmente importante!" "O volume de informação disponível nas plataformas digitais está tendo efeitos negativos porque, para absorver tanto, há uma propensão a se ler 'por alto'. O cérebro leitor tem um circuito plástico, que refletirá as características do meio em que se lê. As características do digital caminham para que sejam refletidas no circuito."
Em outras palavras, assim como ao aprender a ler da maneira tradicional o cérebro formata e registra os itinerários da razão e os caminhos para a emoção, ao aprender a ler da maneira como fazemos nas mídias digitais o cérebro traçará diferentes trajetórias e, se deixarmos a leitura profunda de lado, ele apagará as anteriores, caso tenham um dia existido.
"Se não treinarmos essas habilidades, podemos acabar perdendo a capacidade de entender conteúdos mais complexos e, talvez, de nos envolvermos e usarmos a imaginação", destaca Mangen.
Então, uma pergunta se apresenta como extremamente necessária: o que o futuro reserva para os livros e para o cérebro da leitura?
"A imaginação humana é uma coisa fantástica, somos muito flexíveis. Encontramos maneiras de fazer o que queremos com a tecnologia disponível", pontua Chris Meade.
Para Natalie Carter, o futuro trará "muito mais coleções de contos e mais livros curtos".
Nesse sentido, Cressida Cowell diz já ter sentido a mudança: "Mudei a maneira como escrevo, porque o tempo de atenção das crianças diminuiu. Os livros têm capítulos curtos e são incrivelmente visuais e brilhantes".
Para a neurocientista Maryanne Wolf, "assim como as pessoas podem ser bilíngues e trilíngues, minha esperança é que desenvolvamos um cérebro 'biletrado'. Podemos nos disciplinar para escolher o meio que melhor se adapta ao que estamos lendo e, assim, não perder o dom extraordinário que a leitura deu à nossa espécie".
*Texto baseado no vídeo "O que a leitura em telas faz com nosso cérebro?", da BBC Ideas e The Open University.*
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