A Literatura para as Infâncias e sua diversidade de vozes
- conversacomoleitor
- 28 de jan.
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A literatura ocupa um lugar fundamental na formação cultural, emocional e social de crianças e jovens. Por meio de histórias e imagens, a literatura infantil e juvenil contribui de maneira efetiva para o desenvolvimento da imaginação, do pensamento crítico e da construção da identidade. Ao longo do tempo, grandes autores e ilustradores ajudaram a consolidar esse campo literário, que hoje está mais relevante ao incorporar a diversidade étnico-racial, valorizando autores e ilustradores indígenas e negros.
Historicamente, a literatura infantil foi marcada por narrativas europeias e por uma visão de mundo predominantemente branca. Autores como Monteiro Lobato, no Brasil, e Hans Christian Andersen, na Europa, tiveram papel decisivo na consolidação do gênero, criando histórias que atravessaram gerações. Apesar de sua importância literária, essas obras refletem o contexto histórico em que foram produzidas, muitas vezes deixando de fora outras culturas e perspectivas. No campo da ilustração, nomes como Ziraldo e Roger Mello destacaram-se pela inovação estética e pelo diálogo entre texto e imagem, ampliando o potencial expressivo de suas obras.
Afortunadamente, hoje, autores e ilustradores negros passaram a ocupar espaço de destaque, trazendo narrativas que valorizam a ancestralidade africana, a cultura afro-brasileira e o combate ao racismo. Escritores como Kiusam de Oliveira, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Carmem Lúcia Campos, Edimilson de Almeida Pereira, Emicida, Lázaro Ramos, Otávio Júnior e Nei Lopes, alguns também reconhecidos na literatura para adultos, influenciam fortemente a produção nesse segmento ao propor histórias que reforçam a autoestima e a representatividade negra. Na ilustração, artistas como Ayodê França, Madu Costa, Maurício Negro e Rosana Paulino contribuem para uma estética que dialoga com a memória, a história, a resistência cultural e a valorização da cultura afro-descendente.
A presença de autores e ilustradores indígenas é igualmente essencial para a construção de um olhar plural. Escritores como Auritha Tabajara, Marcia Kambeba, Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Txai Suruí, Eliane Potiguara, Yaguarê Yamâ, Olívio Jekupé, Lia Minapoti, Kaká Werá e Trudruá Dorrico trazem narrativas baseadas na oralidade, nos mitos e na relação profunda entre ser humano e natureza. Suas obras rompem com estereótipos e permitem que crianças indígenas se vejam representadas, ao mesmo tempo em que apresentam às demais crianças outras formas de compreender o mundo. Ilustradores indígenas, como Yacunã Tuxá, Tai Silva, Kássia Borges Karajá e Jaider Esbell, reforçam essa perspectiva ao utilizar elementos visuais ligados às cosmologias e tradições de seus povos.
Nesse contexto, a literatura infantil e juvenil contemporânea assume um papel social ainda mais decisivo: o de promover o respeito à diversidade e o reconhecimento das múltiplas identidades que compõem a sociedade. Ao entrar em contato com histórias escritas e ilustradas por autores de diferentes origens étnico-raciais, crianças e jovens aprendem a valorizar a diferença, a empatia e o diálogo intercultural.
A valorização de grandes autores e ilustradores — indígenas e negros — não significa apagar a tradição literária já consolidada, mas, sim, ampliá-la.
A literatura infantil e juvenil é, essencialmente, um espaço de encontro entre culturas, saberes e experiências e contribui para a formação de leitores mais críticos, conscientes e sensíveis e de cidadãos mais generosos e solidários à diversidade do mundo em que vivem.
Referências bibliográficas
EVARISTO, Conceição. Histórias de leves enganos e parecenças. Rio de Janeiro: Malê, 2016.
GONÇALVES, Ana Maria. A cor da ternura. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Globo, 2007.
MELLO, Roger. Meninos do mangue. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2001.
MUNDURUKU, Daniel. O caráter educativo do movimento indígena brasileiro. São Paulo: Paulus, 2012.
MUNDURUKU, Daniel. Histórias que eu ouvi e gosto de contar. São Paulo: Callis, 2004.
OLIVEIRA, Kiusam. Omo-Oba: histórias de princesas. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2009.
POTIGUARA, Eliane. A terra é a mãe do índio. Rio de Janeiro: Grumin, 1990.
ZIRALDO. O menino maluquinho. São Paulo: Melhoramentos, 2007.
SURUÍ, Txai e ZENSHÔ, Fernando. Canção do amor. São Paulo: Elo, 2024.
CARVALHO, Ana; CARELLI, Rita; e PANARÁ, Komoi. Depois do ovo, a guerra. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
KAMBEBA, Márcia; e EICH, Cris. Infância na aldeia. São Paulo: Ciranda na Escola, 2023.
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